Mauricio Barros

Mauricio Barros

Enquanto o filho treina com Tite, George Weah fareja golpe na Libéria

Maurício Barros
Getty
George Weah vota na eleição presidencial da Libéria
George Weah vota na eleição presidencial da Libéria

No primeiro treino da Seleção Brasileira na França visando os dois amistosos contra Japão e Inglaterra, cinco jogadores da base do Paris Saint-Germain ajudaram a inteirar o quórum capenga. Entre eles, estava o lateral-esquerdo Timothy, de 17 anos, nascido nos Estados Unidos mas de sangue liberiano, como seu pai George Weah, ex-craque de PSG e Milan e eleito, em 1995, Melhor do Mundo da Fifa e Bola de Ouro da France Football.

Pense na ebulição na cabeça do moleque. Bater bola ao lado de craques como Neymar, Willian, Paulinho, Daniel Alves, fardado com a roupa de treino do Brasil, é honraria para poucos. Imagine então fazer isso enquanto, a milhares de quilômetros dali, seu pai vive a expectativa de, enfim, ser eleito presidente da Libéria, depois de mais de uma década tentando!

No último dia 16 de outubro, Weah (CDC, Congress for Democratic Change) foi anunciado vencedor do primeiro turno da eleição presidencial, obtendo 38,4% dos votos, dez pontos percentuais acima do segundo colocado, o vice-presidente Joseph Boakai (UP, Unity Party). Ambos conquistaram o direito de ir ao segundo turno, que estava marcado para esta terça-feira, dia 7 de Novembro, com Rei George, de 51 anos, como favorito. Seria o primeiro ex-jogador de futebol a virar presidente de um país! Só que entrou areia...

A NEC, Comissão para Eleições Nacionais, suspendeu o pleito, obedecendo ordem da Corte Suprema da Libéria, que acatou um pedido do LP, o Liberty Party, que alegou fraudes no primeiro turno. Charles Brumskine, o candidato do LP, havia ficado em terceiro no primeiro turno, com 9,6% dos votos. A suspensão é por tempo indeterminado, até que a NEC apresente o resultado de suas investigações sobre as denúncias de fraude. Mas se o LP não ficar satisfeito, pode recorrer novamente à Corte, que poderá ela mesma investigar. Ou seja, muita coisa ainda vai acontecer até que seja definido quem será o presidente da Libéria. Enquanto isso, as campanhas de Weah e Boakai estão suspensas. Vale lembrar que observadores internacionais, entre eles o Centro Carter, criado pelo ex-presidente dos EUA Jimmy Carter, declararam não terem visto problemas relevantes que justificassem a suspensão do pleito.

O vencedor irá substituir Ellen Johnson Sirleaf, primeira mulher eleita chefe de Estado no continente africano, no que seria uma inédita sucessão pacífica de um presidente eleito por outro, também eleito, em 70 anos. O espírito da Guerra Civil ainda paira sobre o miserável país do noroeste da África, e os riscos para a frágil democracia liberiana seguem enormes. Há um cheiro estranho no ar, porque o UP, que vai ao segundo turno em uma condição aparentemente desfavorável, apoiou a contestação feita pelo LP.

George Weah, que é senador, está tiririca. Acusa que há uma conspiração contra ele, e disse, em sua conta no Twitter, que “nenhuma tática do medo irá interromper o desejo de mudança expresso pelo povo da Libéria”. O clima é tenso em Monrovia. Uma democracia frágil, a gente sabe bem disso, é o parque de diversões dos golpistas.