Renato Rodrigues

Renato Rodrigues

Egídio, a raça e o Palmeiras que correu errado na Libertadores

Renato Rodrigues, do DataESPN

Cesar Greco/Divulgação
Time comandado pelo técnico Cuca foi eliminado na Libertadores
Time comandado pelo técnico Cuca foi eliminado na Libertadores

A cobrança começou e vai ser mais forte. O Palmeiras, de grandes investimentos para 2017, não ganhou o Paulista, caiu precocemente da Copa do Brasil e Libertadores, e agora se vê longe do líder e arquirrival Corinthians no Brasileirão. Como de costume dentro de uma cultura de futebol "resultadista" e individualista, a caça às bruxas também promete ser feroz. E já temos um candidato a vilão: Egídio. Um só (UM!) culpado por uma derrota dentro de um esporte altamente coletivo, onde mais 40 pessoas estão envolvidas em todo um processo que interfere no resultado e no desempenho dentro de campo. 

Mas a ideia central aqui é falar de desempenho. Tratar o futebol como coletivo. Com isso ficam as seguintes perguntas: você, palmeirense, mesmo que tivesse passado pelo Barcelona-ECU, com Jailson defendendo três ou quatro penais, uma vitória épica dentro de casa, torcida empurrando, time lutando... Ainda assim estaria satisfeito com o futebol do seu time? Realmente acha que ganhou está tudo bem e perdeu não serve? Acredita piamente que este elenco - apesar dos seus desequilíbrios (chegaremos a isso lá na frente) - não pode praticar um futebol melhor e mais atual? Se sim, pare por aqui. Se não, vamos em frente...

Falar de garra, de raça ou de entrega neste momento é beirar a preguiça. Já cortamos isso por aqui. Apesar da doída eliminação, o que não faltou foi vontade. O Palmeiras correu, correu, correu... A grande questão é: correu certo? Existia uma organização por trás de tanta raça? Vamos tratar de erros e acertos, de virtudes e deficiências, boas e más escolhas. Fugir do 8 ou 80. 

É nítido que Cuca tem um modelo de jogo para sua equipe. É possível enxergar as ideias de jogo que o treinador busca: intensidade e agressividade, ações verticais e muita aposta em duelos pessoais, seja defendendo ou atacando. Tem consigo uma ideia de futebol totalmente estratégico. De estudar, se adaptar e atacar as fraquezas dos adversários. Não pensa duas vezes em alterar sistema ou escalação para privilegiar algum encaixe ou proposta de jogo.  Trata-se de um treinador altamente engenhoso e inquieto quando as coisas não vão tão bem. Qualidades importantes para a profissão.

Por outro lado, trata-se de um modelo que, apesar dos resultados da última temporada - onde atingiu um desempenho muito satisfatório, principalmente no 1º turno -, está longe de ser atual. Chegamos a essa conclusão quando observamos o tipo de futebol que é praticado nos grandes centros do planeta. Um modelo que tem exposto falhas e deficiências que, ao contrário do ano passado, ainda não foram corrigidas e são exploradas pelos adversários. O Cruzeiro, por exemplo, explorou como ninguém as quebras da linha defensiva alviverde, que acontecem por conta dos encaixes individuais e longas perseguições na fase defensiva. Arrastou zagueiros e laterais para longe da área e atacou espaços por eles deixados. O rival Corinthians, nos dois gols marcados no Allianz, fez a mesma coisa.

O Palmeiras ataca a todo custo. E ataca muito sem a bola. Escolhe como estratégia em algumas partidas pressionar a saída de bola do adversário, como fez contra o Barcelona. Mas não é condicionado a isso. Sobe seus atacantes, mas apenas pressiona a bola. Não consegue, em muitos momentos, fechar linhas de passe, cobrir espaços... Pressionam a bola e quem está com ela. Corridas de frente, sem fechar o passe. Os atletas se desdobram, mostram empenho de sobra, mas correm errado. Sabe aquela velha expressão de que "fulano só corre errado"? Os primeiros 45 minutos do Verdão contra o rival equatoriano é o melhor exemplo disso.

Ainda em cima dessa tentativa de sufocar o adversário, principalmente nos primeiros minutos, o Palmeiras se mostra um time espaçado. Atacantes e meias avançam, tiram espaço na iniciação do rival. A ideia é recuperar a posse o mais próximo do gol e reagir com velocidade. Na temporada passada, os alviverdes fizeram grande parte de seus gols recuperando a bola no campo ofensivo. 

Mas e quando esse adversário consegue tirar a bola dessa pressão? A linha defensiva, ao invés de avançar e diminuir o campo, como fazem as grandes equipes que optam por esse conceito, fica posicionada em bloco médio/baixo. Com isso o adversário tem campo e espaço para atacar. Se um lateral já foi batido no caminho por que saiu para caçar, a linha nem sustentada está mais. Com a velocidade como grande característica, o Barcelona chegou em condições de concluir jogadas na área palmeirense em vários momentos. 

Falta repertório ofensivo. E a questão aqui nem são os laterais na área. Se bem treinados, podem, sem demérito algum, ser um recurso. Mas em alguns jogos o Palmeiras mostra uma grande dificuldade para propor o jogo, criar, ter a bola... Contra o Barcelona cruzou bolas totalmente aleatórias. Não condicionou o time a um bom cruzamento. Alçou bolas na área de forma antecipada, com a bola vindo de frente para os zagueiros rebaterem. Muitas vezes nem preencheu bem o setor para finalizar. Fora as faltas de quase o meio de campo que foram jogadas na área. O Palmeiras abriu mão de colocar a bola no chão, de circular, movimentar, abrir espaços... Foi uma partida pautada nas transições. Recupera e acelera, recupera e acelera, recupera e acelera... Os equatorianos, por conta de suas características, entraram na onda.

Cuca não tem culpa de não ter seus meias em perfeitas condições para a decisão. Mas tem culpa por não trabalhar jogadores para cumprirem funções. Por reservas não entregarem o mesmo que seus titulares. Corinthians e Grêmio, por vezes desfalcados, conseguem manter nível parecido com quem entra e cumpre as obrigações do titular. Claro que a qualidade pode cair um pouco, normal. São jogadores diferentes. Mas não dá para esperar mais de 6 meses por Moisés para o time ficar mais criativo.

Sobre Egídio, a implicância tem algum sentido se olharmos algumas atuações individuais do jogador. Trata-se de um lateral-esquerdo que tem suas dificuldades, principalmente defensivas. Mas, por incrível que pareça, trata-se de melhor lateral-esquerdo do elenco. E aí que vem o desequilíbrio. Cuca já testou Michel Bastos (que não foi bem), Zé Roberto (que tem dificuldades posicionais na linha defensiva) e nada. Na direita, jogou com Tchê Tchê. O Palmeiras gastou com dois centroavantes, meia, volante, zagueiro... Porque não laterais de maior qualidade? Então existe um erro no planejamento, na montagem do elenco. Então a diretoria também tem sua parcela.

A questão aqui não é defender ou criticar X ou Y. Egídio está dentro de todo um contexto complexo que é uma equipe de futebol. Ali está por decisões técnicas. Que ali também está por questões administrativas. Errou ele, errou Cuca, errou a direção... Uma eliminação, um ano ruim ou uma crise nunca tem um só culpado. Normalmente são vários e vários os motivos para a as coisas não encaixarem. 

Que essa derrota sirva como reflexão para o Palmeiras e o palmeirense. Como a chance para se pensar melhor seu jogo e que tipo de futebol quer se praticar na Academia. Para Cuca crescer como profissional. Ou mesmo para o clube se fortalecer como um todo. O trabalho dos últimos anos, de reconquistar o prestígio e orgulho de seu torcedor, tem grandes virtudes. 

O Palmeiras perdeu por que joga mal. E já faz um tempo. Nada além disso. Então cabe a nós enxergar o que é e não o que quer. 

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